novembro 08 2016 0Comment
jorge-fmu

Ser Igreja em tempos de violência

O que a Bíblia diz sobre violência? Nós que somos cristãos devemos ter uma compreensão das raízes da violência. A cobertura mediática sobre o assunto é chocantemente vasta, mas superficial. Centra-se no fato – que também é importante -, mas dificilmente atinge as raízes das causas da violência.

Então, o que a Bíblia diz?

Nos é conhecido, logo no início da narrativa bíblica, o primeiro ato hediondo de violência. Já na segunda geração da humanidade um irmão derrama o sangue de outro. Caim mata Abel por uma razão que vem de dentro do coração – o ciúme que se transforma em raiva. O padrão é definido para toda a humanidade!

Algo tão simples como o ciúme quando não controlado, deixa crescer, e de modo profundo e intenso, resultando em ações de violência. Deus havia advertido Caim ao perguntar: “Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu rosto? Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo” (Gn 4:6-7).

Esta é realmente uma declaração surpreendente. Ciúmes conduz à raiva (fúria). A raiva altera nossa personalidade (rosto transformado). A personalidade sem controle gera violência. E dependendo da violência, produz a morte. O pecado é predatório, fica escondido atrás da porta, à espreita para possuir Caim.

O que pode ser feito em relação à violência?

“Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4:6).

Deus disse a Caim que era melhor ele “exercer domínio” (governar) sobre o “desejo” – patologia de sua alma – (anseio, avidez – de um homem por uma mulher, da mulher por homem, de animal selvagem para devorar. Ele não fez, e sangue foi derramado.

Deus disse a Caim: “O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu irmão está clamando” (Gn 4:10). E assim acontece com o sangue de muitos hoje!

Lição: a violência é o resultado de uma patologia da alma.

A violência, biblicamente falando, não começa com exércitos permanentes, ódio étnico, desigualdades sociais de longa data, injustiça, corrupção e coisas do tipo. A violência é tão próxima a nós quanto nossos próprios corações.

Um pouco mais tarde, ainda em Gênesis, o próprio Deus estabelece um princípio profundo sobre a moralidade da violência: “A todo que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo. ”Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado” (Gn 9:5-6) [Pena de morte?].

Logo no início de tudo tal princípio é fundacional. E mais importante ainda é que relaciona a fundamental realidade de que a violência contra seres humanos é errada porque são afrontas contra a imagem e semelhança de Deus. Há um valor, uma dignidade para toda vida humana, em outras palavras, a violência egoísta ou indiscriminada é uma ofensa moral.

Uma pergunta que surge imediatamente é se a própria Bíblia promove violência. Não é o Antigo Testamento um relato muito sangrento da história, e o próprio Deus mesmo, que não tolera a violência, não promove a violência? Esta é uma questão ampla e muito importante.

Paul Copan em seu livro, Is God a Moral Monster? Making Sense of the Old Testament God (Deus é um monstro moral? O sentido do Deus do Antigo Testamento), publicado pela Baker Book, fornece algumas boas respostas. Mas o que pode brevemente ser dito é:

1. Nem tudo o que aconteceu nos tempos do Velho Testamento foi tolerado por Deus;

2. Parte da violência do Antigo Testamento era a proteção contra os poderes hostis e o julgamento de Deus;

3. A nação de Israel no Antigo Testamento era uma teocracia, e tudo isso mudou quando chegamos ao Novo Testamento;

4. É óbvio, ao ler o Novo Testamento, que a partir desse momento, um conjunto de éticas totalmente diferente se aplica com a vinda do reino de Deus com Jesus.

Então vamos considerar o que o Novo Testamento tem a dizer sobre a violência, particularmente no ensino de Jesus.

Primeiro, Jesus modela o poder da não violência

Na mesma noite de sua prisão, quando homens violentos se vieram até onde Jesus estava. Pedro estava pronto e preparado para lutar, pois havia trazido uma espada e quando a turma chegou tirou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita (O nome daquele servo era Malco).

“Jesus, porém, ordenou a Pedro: “Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18:10-11).

“Coloque sua espada de volta em seu lugar” porque certamente muitos que desembainham a espada pela espada morrerão. Esta era uma declaração de princípio, consistente com todos os ensinamentos de Jesus. No seu julgamento, Jesus disse a Pôncio Pilatos: 36 Disse Jesus: “O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui” (Jo 18:36).

Alguns cristãos [como os Menonitas e outros de tradição Anabatista], veem no ensinamento de Jesus nada menos do que o pacifismo, enquanto outros diriam que o ensinamento de Jesus não exclui a violência na defesa, ou como descreve Romanos 13, um uso intencional e punitivo da força no governo humano:

“Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal” (Rm 13:3-4).

Em ambos os casos, no entanto, é claro que o ensinamento de Jesus eleva a não-violência contra a violência. E a resposta proferida por Jesus contra a violência é a parte importante: Jesus introduziu um tipo diferente de reino e reinado, com um conjunto diferente de padrões éticos. “Might makes right” – algo como “use a força para fazer o que é certo” é como a maioria da história humana se desenvolveu, mas Jesus introduziu uma maneira inteiramente diferente de ver a vida.

Em segundo lugar, Jesus fala sobre a fonte da violência

Um dos mais revolucionários dos ensinamentos de Jesus é que a violência humana começa num lugar mais profundo. O pecado da violência começa antes que o sangue seja derramado ou palavras firam. No Sermão do Monte, Jesus disse:

“Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamento’. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer quem disser a seu irmão: ‘Racá’ [“Você não vale nada”], será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’ [“idiota”], corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mt 5:21-22).

Não podemos falar de assassinato sem falar de raiva. Não podemos falar de tiroteios, favelas sem falar sobre as infecções do ódio, da maldade e raiva em nossa cultura.

E então há este ensinamento importante, novamente a partir do Sermão da Montanha:

“Jesus chamou novamente a multidão para junto de si e disse: “Ouçam-me todos e entendam isto: não há nada fora do homem que, nele entrando, possa torná-lo ‘impuro’. Pelo contrário, o que sai do homem é que o torna ‘impuro’. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!” Depois de deixar a multidão e entrar em casa, os discípulos lhe pediram explicação da parábola. “Será que vocês também não conseguem entender?”, perguntou-lhes Jesus. “Não percebem que nada que entre no homem pode torná-lo ‘impuro’? Porque não entra em seu coração, mas em seu estômago, sendo depois eliminado”. Ao dizer isto, Jesus declarou “puros” todos os alimentos. E continuou: “O que sai do homem é que o torna ‘impuro’. Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’” (Mc 7:14-23).

Aqui está a má notícia da condição humana: a violência – como todo o pecado – vem de dentro do coração humano. O adultério não é causado externamente pela boa aparência de outra pessoa, a ganância não é causada externamente pelo dinheiro, a inveja não é causada externamente pelas concessionárias de carros e também a violência não é causada externamente por videogames ou filmes.

Os estímulos externos certamente afetam as pessoas, e profundo sofrimento psicológico certamente condiciona as pessoas, e uma cultura de violência dá permissão para ser violenta, ou para ser dessensibilizada, mas o instinto e a escolha de agir em violência saem do coração.

Não se pode dizer que esta declaração de Jesus oferece uma psicologia completa da violência. Mas sim que há um núcleo de verdade aqui que pode nos ajudar quando olhamos para o mistério da violência na nossa sociedade. Os fariseus queriam acreditar que o pecado tinha a ver com aquilo que as pessoas colocavam para dentro delas, como o alimento que comiam. Essa é uma maneira conveniente de ver a vida. Muito mais preocupante, no entanto, é que  todas as pessoas têm dentro delas mesmas o potencial para a violência. É isso que preocupou Jesus! O potencial para os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todas com potencial enorme para produzir violência. A fábrica produtora da violência está dentro do ser humano e não fora dele!

Terceiro, Jesus nos encoraja a enfrentar corajosamente a violência

Jesus claramente ensinou que o mundo é um lugar pecaminoso e violento. Mas ele desafiou seus seguidores a não viverem sob medo e intimidação: “Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno” (Mt 10:28). Ele também disse: “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (Jo 16:33).

Acho que devemos nos perguntar: qual é essa bravura de que Jesus falou? O tipo de bravura que os cristãos que trabalham em partes perigosas do mundo experimentam todos os dias. Como podemos levar isto a sério para que não vivamos nossas vidas acovardadas?

Em quarto lugar, Jesus ordena uma atitude contra a violência

Então, aonde nos dirigiria as Escrituras para encontrar maneiras de lidar com a violência? O que Jesus quer que façamos a respeito da violência? O que deve saltar a nossas mentes são as bem-aventuranças, que inclui este desafio da vida real:

“Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mt 5:9).

O que podemos fazer com relação à violência? Deve começar com um compromisso sério com o princípio: “Bem-aventurados os pacificadores”. Mas isso não acontecerá a menos que consigamos ir além da ilusão (desejos imaturos). Pacificação é fruto de um de trabalho ativo, e por vezes, frustrante. Paz não é ausência de conflito, mas a plenitude do Shalom de Deus. Não é a coisa mais conveniente a se fazer, mas a mais certa – “bem-aventurados são os bem-aventurados” é o que gostaríamos de acreditar, mas não, “bem-aventurados são aqueles que gastam suas vidas no interesse da reconciliação e shalom”.

Esse desafio é assustador, mas é o chamado claro de Jesus para seus seguidores em todos os tempos. A indústria do entretenimento enche nossas mentes com imagens e letras violentas. De alguma forma, o trabalho dos pacificadores precisa começar muito, muito antes que as balas carregadas cheguem nas mídias. Dietrich Bonhoeffer, em seu livro, O custo do discipulado, disse: “Os seguidores de Jesus foram chamados à paz. Quando ele os chamou eles encontraram a paz, porque ele é a sua paz. Eles são informados de que não só devem ter paz, mas construí-la. E para isso renunciam a toda violência e tumulto”.

John Stott, em seu comentário sobre o Sermão da Montanha, diz: “Agora, a pacificação é uma obra divina. Pois a paz significa reconciliação, e Deus é o autor da paz e da reconciliação”.

Em termos práticos, como é a pacificação? O que pode ser feito com relação à violência?

Outra passagem importante do Novo Testamento que fala sobre o estabelecimento da paz está na epístola de Tiago: “O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores”. Ou seja, quem planta paz colhe justiça! Por isso Tiago pergunta:

“De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês? Vocês cobiçam coisas, e não as têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras” (Tg 4:1-2).

A resposta de Tiago vai na mesma direção: a violência é fruto do que está dentro, das “paixões que guerreiam dentro de vocês”.

O que pode ser feito com relação à violência?

Nunca eliminaremos totalmente a violência, mas podemos diminuí-la e antecipá-la. Mais do que vigilantes, precisamos de vigilância.

Há muitos profissionais cujo trabalho é a pacificação, e precisamos orar por eles e apoiá-los. Pessoas que atuam na polícia, justiça criminal, educadores, profissionais da saúde mental, juízes, promotores, procuradores e muitos outros. A segurança numa comunidade vem de uma rede de colaboradores. Os seguidores de Jesus são chamados a fazer mais do que passivamente esperar a próxima pessoa sacar sua arma. Nosso Senhor e Salvador nos chama para fechar a lacuna onde pessoas são rejeitadas e abusadas por outros, a conectar-se aos feridos antes que ataquem e firam outros para reduzir o nível de tensão e estresse ao redor de nós, vivendo em shalom.

Deus deu o seguinte testemunho do seu filho Jesus e sua missão:

“Eis o meu servo, a quem escolhi, o meu amado, em quem tenho prazer. Porei sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará justiça às nações. Não discutirá nem gritará; ninguém ouvirá sua voz nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, não apagará o pavio fumegante, até que leve à vitória a justiça. Em seu nome as nações porão sua esperança” (Mt 12:18-21).

A próxima pessoa em nossa comunidade que pode agir com violência é agora, hoje, em algum lugar, um caniço rachado (ferida). Um pavio fumegante. Será que vamos notar essa pessoa? Será que vamos ajudar essas pessoas a não se aproximarem da borda do penhasco? A polícia não pode e nem conseguirá supervisionar a vida de todos. Nossas leis definem o comportamento civil, mas não podem domar as personalidades humanas.

Atirar de volta é sempre pior do que parar o tiroteio antes que ele comece. Trabalhar para barrar a violência é muito melhor do que consertar seus estragos!

Abel estava morto. Caim sabia disso, porque ele o matou.

“Então o Senhor perguntou a Caim: “Onde está seu irmão Abel? “Respondeu ele: “Não sei; sou eu o responsável por meu irmão?” (Gn 4:9).

Essa é a pergunta para nós. Somos guardiões dos seres humanos, criados a imagem de Deus? É responsabilidade humana prestar atenção às vítimas em potencial e termos coragem de ficar atentos aos possíveis agressores.

Caim não fez isso. Outras também não farão, mas SER IGREJA EM TEMPOS DE VIOLÊNCIA é antecipar as causas da violência. E uma das causas que a igreja certamente pode atuar é na personalidade humana como mediadora de conflitos sendo porta-voz e agência conscientizadora dos valores do reino de Deus na promoção da paz

“Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lc 2:14).

Palestra proferida por Jorge Henrique Barro durante o II Fórum de Missão Urbana em Recife

 

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